Adelino Correia:”A actividade física regular tem um papel decisivo para a prevenção das doenças cardiovasculares”

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As doenças cardiovasculares mantêm-se como a principal causa de morte em Portugal. De acordo com uma estimativa, mais de dois terços da população portuguesa não conhece quais são os sintomas de enfarte do miocárdio e só um terço dos doentes utiliza o 112 para ser encaminhado para um hospital e ter a assistência médica mais adequada.

Neste Dia Mundial do Coração falamos com o médico cardiologista Adelino Correia que nos explica que é possível ter uma vida saudável.

 

Como está o coração do Português?

O aumento espectacular da duração de vida dos portugueses nos últimos quarenta anos, deve-se em grande parte ao controlo das doenças cardiovasculares, nomeadamente a doença cardíaca isquémica (doença coronária), resultante de um maior controlo dos factores de risco, incluindo a hipertensão arterial e o perfil lipídico. Nesse sentido podemos garantir que o coração do português está melhor.

Como vê esta campanha de sensibilização que está a decorrer e qual a importância da campanha Setembro do Coração?

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia promoveu recentemente uma campanha nacional de alerta para a Insuficiência Cardíaca que contou com a exibição pública de um modelo de coração de grandes dimensões que percorreu o país.
No Dia Mundial do Coração, 29 de Setembro de 2019, esse modelo de coração irá ser pintado pelas crianças da Minicor – Associação Coragem que simbolicamente transformarão o coração doente num “Coração de Esperança”. Pretende-se com isso dar o sinal de que há esperança e futuro para os que padecem de doenças cardiovasculares e em especial para os doentes com Insuficiência Cardíaca e que proporcionar essa esperança é a missão de todos – profissionais de saúde, investigadores, responsáveis políticos, indústria que desenvolve medicamentos e dispositivos inovadores. Este ano o “Coração de Esperança” será o grande lema do Dia Mundial do Coração. Naturalmente que estas campanhas de sensibilização são importantes, contribuindo para a prevenção destas doenças.

Do ponto de vista epidemiológico qual a patologia cardíaca que inspira mais preocupação?

O aumento da duração de vida da população referido anteriormente,  resultante do melhor tratamento da doença cardíaca isquémica, tem o lado

reverso, que é a insuficiência cardíaca, a epidemia deste século, no que às doenças cardiovasculares diz respeito, não só pela sua prevalência crescente, mas sobretudo devido à alta morbilidade, com internamentos frequentes e mortalidade.

A morte súbita tem sido também uma enorme preocupação da cardiologia, nos últimos anos.

O que falta fazer no âmbito da prevenção?

Eu diria que falta fazer tudo. Apesar dos esforços contínuos nesse sentido, o papel da prevenção nunca está concluído. Quero referir-me sobretudo à prevenção dos factores de risco, nomeadamente a hipertensão arterial, a dislipidemia, a diabetes e sobretudo em relação ao tabagismo e à vida sedentária, factores que poderão ser modificados. Alguma coisa tem sido feita mas muito mais será necessário.

Qual é o papel da atividade física na prevenção às doenças cardíacas?

A actividade física regular tem um papel decisivo para a prevenção das doenças cardiovasculares. Trata-se de “uma medicação” altamente eficaz e de baixo custo. Refiro-me sobretudo ao jogging e à marcha. A natação e o ciclismo são também importantes.

Como evitar doenças cardíacas em crianças e adolescentes numa era de fácil acesso ao digital, alimentos e bebidas açucaradas?

Há naturalmente doenças congénitas nas crianças que necessitam tratamento e não prevenção. Mas a prevenção das doenças cardiovasculares deve iniciar-se na infância, tendo um papel relevante a alimentação. A dieta deverá ser diversificada, e nós temos a sorte de possuir a “dieta mediterrânica”, nela pontificando as verduras e o azeite. Todos os alimentos são permitidos, incluindo alimentos e bebidas açucaradas, estes só ocasionalmente e em quantidades reduzidas.

Nesta era digital, é fundamental mobilizar as crianças e adolescentes para a prática regular de exercício físico. A luta contra a obesidade nas crianças também passa por isso.

O ensino e alertas sobre os malefícios do tabaco, será extraordinariamente importante para a prevenção das doenças cardiovasculares no futuro.

Há uma periodicidade para fazer exames? A partir de que idade?

Não há propriamente uma idade a partir da qual se deve fazer exames. A história familiar terá a sua importância na decisão sobre o momento da realização de qualquer exame, para além, obviamente, dos sintomas apresentados pela criança. O médico de família tem aqui um papel importante, sendo responsável pelo aconselhamento nesse sentido.

O stress tem aumentado o índice de doenças cardíacas nas mulheres?

O stresse é um fator de risco para as doenças cardiovasculares e, obviamente, nas mulheres também tem o seu papel nocivo. Aliás, julgo que o stresse e o tabagismo são os grandes responsáveis pelo surgimento, cada vez mais precoce, da doença cardíaca isquémica nas mulheres.

Problemas no coração são genéticos?

Algumas doenças cardíacas têm de facto uma causa genética. Refiro-me sobretudo a algumas miocardiopatias (doenças do músculo cardíaco) e a algumas doenças arrítmicas, nomeadamente as canalopatias (anomalias nos canais de sódio e potássio celulares), por vezes causando morte súbita.

A maioria das doenças cardiovasculares, embora com tendência familiar, são adquiridas, relacionando-se com o ambiente, sendo relevante a prevalência dos factores de risco, nomeadamente a hipertensão, a dislipidemia (colesterol), a diabetes e o tabagismo.

Quais são os mais recentes avanços tecnológicos da cardiologia?

Nos últimos anos o avanço tecnológico tem sido crescente.

No tratamento do enfarte agudo do miocárdio, o cateterismo urgente conseguiu reduzir a mortalidade e morbilidade desta doença, através da abertura da artéria coronária ocluída, precocemente, com implantação de stents cada vez mais eficazes e com menos risco trombótico.

Na prevenção da morte súbita, os cardio-desfibilhadores implantados têm desempenhado um papel fundamental.

A ressincronização cardíaca utiliza a estimulação de pacemaker específico, para sincronizar e melhorar a contractilidade do ventrículo esquerdo em doentes determinados, com insuficiência cardíaca.

O tratamento das arritmias, incluindo a fibrilação auricular a mais prevalente, através do estudo electrofisiológico e da ablação de arritmias, tem sido fundamental para o seu controlo.

Recentemente o aparecimento de smartwatches e smartphones com capacidade de detetar arritmias e realizar um registo de electrocardiograma, serão importantíssimos para o diagnóstico de arritmias, sobretudo a fibrilação auricular, permitindo iniciar o tratamento precocemente.

 Acha que existe uma grande falta de formação nas instituições do curso de suporte básico de vida?

Apesar de todos os esforços, não tem sido possível generalizar os cursos de suporte básico de vida. O suporte básico de vida pode permitir manter a pessoa acometida de morte súbita em condições de ser reanimada após a chegada dos socorros adequados.

Idealmente toda a população deveria estar preparada para o efeito. Contudo sabemos que é muito baixa a taxa de sobreviventes de morte súbita, incluindo em ambiente hospitalar.

A prevenção também faz parte dos objetivos dos cardiologistas?

Cada vez mais o papel do cardiologista deve visar a prevenção. Em ambiente hospitalar o papel do cardiologista, para além do tratamento, visa a prevenção secundária, isto é aquela que se segue a um evento cardiovascular. Mas a prevenção primária, antes de qualquer evento cardiovascular, é fundamental e aí, o médico de família tem uma importância fulcral. Todo o investimento em prevenção tem um grande retorno, quer em termos de doença (da sua prevenção) quer em termos económicos.

Quais são os piores alimentos para o coração?

Todos os alimentos poderão ser utilizados desde que com moderação. Não há alimentos proibidos, Naturalmente as gorduras saturadas, os glícidos de absorção rápida (doces) e as bebidas alcoólicas deverão ser consumidos com grande moderação.

A dieta deve ser diversificada, incluindo uma variedade grande de alimentos.

Que mensagem quer deixar ao público neste Dia Mundial do Coração?

O lema deste ano, no dia mundial do coração é, segundo a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, o “coração de esperança”.

Julgo que o tratamento das doenças cardiovasculares terá, nos próximos anos melhores resultados contribuindo para maior longevidade e melhor qualidade de vida da população portuguesa.

Para a sua prevenção será decisivo o papel das pessoas, nomeadamente na detecção da hipertensão arterial, na avaliação do perfil lipídico e na detecção da diabetes, evitando fumar e praticando exercício regularmente.

Assim abusem da dieta mediterrânica, mexam-se, pratiquem exercício, excluam o tabaco e sejam felizes. A saúde do nosso coração depende em grande parte do nosso comportamento.

 

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