Diana Silva: ” Os portugueses têm atenção e escutam a sua própria voz”

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Neste dia 16 de Abril, Dia Mundial da Voz, falamos com Diana Silva, médica Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial no Hospital de Braga que nos alertou para algo que geralmente é esquecido. A nossa voz, aquela que nos faz comunicar com o mundo. Numa altura em que o mundo é dominado pelo Covid19, é importante não esquecer que podemos ser afectados por outras doenças devendo, assim,  estar alerta a todos os sinais que o nosso corpo  nos envia. 

 

“Cuide da sua voz!”. Será sempre esta a frase dita pelos profissionais de saúde?

Sim! Esta é sem dúvida uma frase muito proferida em âmbito de rastreio e consulta. A voz é um instrumento incrível, que permite ao ser humano comunicar, sendo um meio de transmissão de emoções e ideias. Utilizamos a voz para nos exprimirmos, para nos relacionarmos, nos momentos lúdicos, para nos fazermos ouvir. E se a voz nos permite tudo isto, devemos parar para refletir sobre a importância de a cuidar. Portanto, sim: Cuide da sua Voz!

O que poderão as pessoas fazer para cuidar da sua voz, algo tantas vezes esquecido?

Existem vários cuidados e medidas que permitem melhorar e otimizar a saúde e qualidade vocal. São medidas simples e que uma vez implementadas e aplicadas diariamente, podem proteger a voz e prevenir patologias vocais.

Os cuidados a ter são:

– Hidratação adequada, bebendo água diariamente e várias vezes ao dia.

– Períodos de descanso vocal durante o dia, de modo a evitar a fadiga e abuso.

– Utilização de amplificadores sonoros em caso de necessidade de falar em ambientes ruidosos.

Deverá evitar:

– Exposição a substâncias irritantes como o tabaco.

– Consumir álcool e alimentos com cafeína pois estes promovem desidratação e consequente aumento da espessura e dificuldade de mobilização do muco.

– Ambientes com fumo.

– Ambientes secos, com pó ou gases de produtos irritantes.

– Abuso vocal como falar durante várias horas sem pausas, falar em ambientes ruidosos, gritar ou sussurrar.

– Falar durante a realização de esforços ou atividade física.

– Posturas tensas ao falar, tente relaxar os músculos dos ombros e pescoço. – Pigarrear e tossir de forma frequente.

 

Estarão as pessoas mais informadas hoje em dia acerca dos problemas relativos às cordas vocais?

De forma geral, hoje em dia as pessoas estão mais informadas sobre os problemas de saúde vocal uma vez que existe uma boa fomentação desta informação através dos meios de comunicação social bem como campanhas e medidas de rastreio, aconselhamento e esclarecimento. A título de exemplo, no âmbito do Dia Mundial da Voz, anualmente no dia 16 de abril, o Serviço de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial do Hospital de Braga promove uma atividade de rastreio gratuito mediante inscrição prévia, este ano com limitações, dada a contingência atual. Esta atividade além de permitir identificar possível patologia vocal, permite também sensibilizar a população para os cuidados e prevenção de forma a evitar problemas futuros.

 

A voz, e as doenças que a ela estão associadas ganharam tal visibilidade que as pessoas procuram o médico numa fase muito mais precoce?

A grande visibilidade da patologia vocal advém do facto desta ser muito comum e de que, regra geral,a alteração da qualidade vocal motiva preocupação e procura dos cuidados de saúde ainda numa fase precoce. Geralmente o doente fica assustado, sobretudo quando é fumador, e pretende excluir uma causa “grave” para a sua rouquidão.

Numa fase precoce e na ausência de fatores de risco ou sinais de alarme, como hábitos tabágicos, perda de peso, cansaço, dificuldade na deglutição ou na respiração, não é necessário ficar alarmado uma vez que a principal causa da rouquidão é a patologia inflamatória e que a patologia benigna é muito mais frequente do que a maligna.

Estima-se que 47% da população mundial já apresentou rouquidão e que em 29% esta é uma queixa recorrente que pode levar a perda da qualidade de vida, absentismo laboral e procura de ajuda médica. A rouquidão afeta todas as faixas etárias e pode ter várias causas na sua origem.

 

Quais são os fatores que podem contribuir para a instalação de uma disfonia?

As principais formas de alteração da qualidade vocal são a disfonia e a afonia.

A disfonia é a dificuldade para produzir sons ao falar ou uma alteração no tom ou na qualidade da voz. A voz pode soar diminuída, estridente ou rouca. A afonia é a perda total da voz. Existem vários fatores que podem contribuir para a instalação de uma disfonia como o mau uso e abuso vocal, falta de hidratação,exposição do fumo do tabaco, consumo de álcool e café, entre outros já mencionados acima.

As principais causas de disfonia são causas inflamatórias, infeciosas, neurológicas, endocrinológicas e metabólicas, comportamentais, neoplásicas, congénitas e traumáticas. Existem ainda alguns medicamentos para controlar o sangue, a tensão arterial, problemas psiquiátricos e alérgicos que também podem provocar disfonia.

Gostaria de esclarecer que na grande maioria das vezes a disfonia ocorre após uma infeção das vias aéreas superiores, vulgarmente conhecida como “constipação”, resolvendo-se em 7 a 10 dias sem necessidade de tratamento específico e cuja resolução é acelerada com cuidados como hidratação e repouso vocal.

Acha que os portugueses estão atentos e ouvem a sua voz?

Sim, acho que os portugueses têm atenção e escutam a sua própria voz, bem como a dos outros ou não fossem os portugueses um povo genuinamente autêntico e falador. Além disso temos tradições que elevam exponencialmente a voz enquanto “ferramenta de ouro” como o fado e o rancho folclórico, nos quais a voz tem de ser “regada como uma flor” e por isso todo o cuidado é pouco.

Em que circunstância devemos procurar um especialista?

Existem circunstâncias que deverão motivar a procura de um especialista em Otorrinolaringologia tais como a Duração no caso da persistência das queixas por mais de 3 semanas e sobretudo se presença de hábitos de risco como ser fumador, o Padrão caso as queixas sejam recorrentes, a Profissão no caso dos trabalhadores profissionais da voz como cantores ou grupos com uso vocal marcado como os professores, no caso de presença de sinais e queixas de alarme como perda de peso, cansaço, falta de apetite, dificuldade de deglutição ou respiratória. Nestes casos é muito importante a observação por um especialista em Otorrinolaringologia para realização da avaliação da qualidade vocal e do exame objetivo da cabeça e pescoço que inclui a realização de Laringoscopia para observação das estruturas da laringe como as cordas vocais.

 

Nesta altura, em que vivemos um momento especial devido ao Covid19, a utilização de máscaras poderá, de alguma maneira alterar positivamente ou negativamente a nossa voz?

Na altura que estamos a viver, a utilização de máscaras é muito importante para proteção individual e do próximo. A utilização da máscara por períodos prolongados pode resultar numa sensação de menor circulação do ar e secura oral. Assim a sua utilização deve-se adequar ao ambiente em questão, devendo ser utilizada de forma permanente em ambientes sociais e aliviada no ambiente doméstico desde que em casa não haja elementos sob suspeita de infeção ou infeção confirmada. Nos períodos de alívio da máscara, relembro uma vez mais a importância de uma boa hidratação para prevenir a secura oral e da laringe.

 

As pessoas com alguma patologia nas cordas vocais têm, nesta pandemia de ter algum cuidado especial?

Pessoas com patologia das cordas vocais devem ter sempre cuidados especiais, com ou sem pandemia, uma vez que estes promovem a estabilização da própria patologia e ausência de agravamento. No contexto atual da pandemia as pessoas que deverão ter cuidado acrescido são as que têm patologia das cordas vocais de causa oncológica, autoimune, que estão imunossuprimidas (com menos defesas), bem como os mais idosos ou institucionalizados.

 

Que mensagem poderá deixar neste Dia Mundial da Voz?

Viver em sociedade implica comunicar, interagir, ter uma voz e fazê-la soar. É isso que nos torna Humanos. Na sociedade atual na qual vivemos, existe uma grande demanda e uso vocal, exposição ao fumo do tabaco e irritantes, consumo de álcool e cafeína em excesso, utilização de medicação crónica, tudo fatores que propiciam o aparecimento de doenças da voz, pelo que, todo o cuidado é pouco. Desta forma e voltando ao início do artigo, a minha principal mensagem será mesmo: “Cuide da sua voz!”, lembrando-nos sempre do princípio base de que é melhor prevenir do que remediar.

 

 

 

 

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