Tamila Holub: “Nos E.U.A existe um grande espírito de equipa, algo que ainda é escasso em Portugal”

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Tinha 3 anos quando chegou a Braga e podemos dizer que nunca mais nos largou, talvez a culpa seja desta nossa maneira de ser ou da boa comida que por cá se faz. Nunca imaginou chegar ao lugar onde hoje está. Descoordenada, brincalhona, sem método, Tamila Holub era a dor de cabeça dos treinadores. Hoje, é uma atleta Olímpica do desporto que aprendeu a gostar. Hoje, nada nas “mesmas águas ” que nadadores como Michael Phelps ou a Katie Ledecky e considera-se uma sortuda. Tamila é determinada e frontal. Sincera e divertida. A nadadora que tantas alegrias tem dado à cidade de Braga promete não ficar por aqui.

E nós gostamos disso…

 

Quem é a Tamila Holub ? Como descreves a menina mulher que se tornou numa grande atleta?

É nostálgico quando me perguntam pela menina mulher que sou. Ainda há dias estava com 14 anos a representar a selecção e hoje estou quase com 20 anos( risos). O tempo avança muito rápido mas eu continuo a mesma pessoa, uma mulher que acima de tudo é bastante simples e humilde,  gosto de estar com as pessoas, ajudando principalmente os mais novos que sonham vir a ser nadadores. Normalmente se alguém vier falar comigo sobre natação ou sobre qualquer assunto eu faço questão de responder, a não ser que esteja a correr para um treino (risos).

Nos tempos livres (que não são muitos), adoro ler, devoro tudo o que me aparece, gosto muito de cinema e de dançar danças de salão e latinas, valorizo muito os meus amigos e sou apaixonada pela minha família. Quem me conhece realmente bem sabe o quanto a minha casa é importante para mim e o quanto eu dou valor às minha raízes. Nunca me esqueço onde comecei, não me esqueço o quão má atleta eu era e o esforço que foi necessário por parte de todos os que estavam á minha volta. Todas pessoas me ajudaram a ser quem eu sou e me trouxeram até onde estou hoje com todas as oportunidades aqui inerentes que me fazem querer ser ainda mais e melhor para que o futuro seja ainda mais risonho.

Quais são as lembranças que trazes guardadas da primeira vez que nadaste ?

Esta entrevista faz-me voltar a dias realmente muito felizes e marcantes na minha vida, eu tinha 10 anos e participei numa prova em Ponte de Lima e, estupefacta percebi que me tinham oferecido uma medalha, uma simples medalha de participação mas que para mim era um prémio enorme, juntamente com o meu primeiro equipamento do Sc Braga. Recordo-me de chegar a casa e mostrar aquilo como se fosse um grande título e imaginar-me com uma caixa cheia de medalhas. Hoje, tenho mais de 3 caixas cheias, mas aquela medalha foi sem dúvida o meu grande orgulho mesmo que o resultado tenha sido muito mau (risos).

Houve um dia em que realmente percebeste que querias ser nadadora profissional?

Diria que houveram 2 momentos, o primeiro eu ainda era infantil B, teria 13 anos e lembro-me de nadar muito mal, tão mal que havia um torneio em que geralmente levavam toda a gente e nesse ano eu fui a única a não ser convocada. Recordo-me que não primava muito pela responsabilidade.

Há memórias que nos acompanham e há algumas que estão bem presentes como aqueles conflitos com raparigas na altura maiores e mais fortes e que nunca me deixavam passar à frente. Até que um dia decidi perder o medo e puxei o pé a uma dessas colegas e consegui fazer o melhor treino até aquela data. Desde aí, e depois da motivação que os próprios treinadores me deram nesse dia fiquei tão orgulhosa de mim que queria ser a primeira, a melhor, queria conseguir, e foi aí que percebi que queria nadar todos os dias.

Outro momento que me fez querer ser ainda mais competitiva e melhor foi na Polónia, na minha primeira prova internacional com as quinas ao peito onde ninguém estava a contar com o segundo lugar aos 400 m e primeiro lugar aos 800. Foi impressionante, a minha técnica era péssima e mesmo assim consegui, naquela que foi a primeira vez longe dos meus pais, a primeira vez pela seleção e primeira vez em que me senti mesmo importante. Desde aí nunca mais parei.

Braga foi a cidade que te abraçou e te tornou no que és hoje?

Eu estou em Braga desde os meus 3 anos, os meus pais saíram da Ucrânia e vieram à procura de uma vida melhor em Portugal. Nunca poderei dizer que senti logo esse abraço que hoje sinto genuinamente por parte desta cidade que me acolheu. Ao início não foi fácil mas hoje sinto um orgulho imenso na minha cidade, mas não esqueço as minhas raízes ucranianas e russas, até porque lá em casa apenas falamos em português com a minha irmã. Quando era mais nova sempre fiz questão de apresentar a minha cultura e as minhas raízes e lembro-me que sofri de descriminação na primária e no secundário devido a isso. Hoje, felizmente, isso já não acontece com tanta frequência e fico feliz por perceber que as crianças e os próprios pais estão com a mente mais aberta para esta multiculturalidade que é cada vez maior no nosso país e na nossa cidade.

Eu, a cada dia que passa me identifico mais com toda esta gente e as suas tradições, sinto que sou uma das maiores promotoras da cidade. Falo a toda a gente, em todos os países que passo da nossa cidade de Braga com um orgulho cada vez maior. Eu amo Braga e sinto que Braga me retribuiu esse amor, temos a cidade perfeita para sermos realmente felizes.

Porque os E.U.A ? Que bagagem estás a criar no país que é hoje a tua casa ?

Não considero os E.U.A a minha casa mas sim um apartamento, (risos), tenho aqui uma vida diferente da que tinha em Braga mas a minha cidade é e será sempre a minha única casa.

Eu sabia que depois dos jogos olímpicos de 2016 eu tinha que melhorar, que trabalhar mais, sou muito exigente e dura comigo e sei que quero deixar uma marca, mas a verdade é que o  Sc Braga não me conseguia dar as condições de treino que eu precisava. Sinto que o clube ainda não apoia a natação da maneira que deveria apoiar, já muito trabalho está a ser feito mas ainda há muito para fazer, e nesse sentido eu sabia que tinha que mudar e sair da minha zona de conforto, se não o fizesse aos 19 anos não seria aos 27 que o iria fazer, por isso arrisquei e vim para os Estados Unidos onde é muito mais fácil conciliar o desporto com os estudos.

Conheço muitos atletas que por falta de condições quando entraram para a universidade tiveram que desistir da natação e de outras modalidades principalmente a nível competitivo. Esta é uma triste realidade que ainda existe e que é muito dura para os jovens que têm que fazer uma escolha.

Espero que esta passagem por aqui me ofereça uma grande bagagem para a minha carreira e com ela possa também ajudar os mais novos e ajudar a minha equipa. Aqui aprendo a ter uma mente mais aberta, a ter treinos completamente diferentes do que tinha e certamente levarei daqui uma mala bem pesada que vai fazer a diferença.

Estiveste nos Jogos Olímpicos em 2016. Queres falar um pouco dessa experiência?

Foi incrível, adorei cada momento. Apesar de todos os comentários negativos que foram feitos à organização eu foquei-me apenas nas coisas boas à minha volta, e foram tantas as boas memórias que todos aqueles que trabalharam para que isso fosse possível me deram.

O Brasil e as suas gentes foram 90% daqueles Jogos Olímpicos, a sua alegria e o seu sorriso contagiante fizeram daquele momento algo que nunca iremos esquecer.

Quanto à competição posso dizer que foi bastante dura, foi o meu último ano como júnior e tanto eu como o meu treinador sabíamos que havia uma oportunidade de conseguir o pódio e por isso lutamos muito nos europeus onde fiquei em primeiro lugar nos 1500 metros e segundo nos 800 metros. Devido a esse esforço para conseguir os mínimos para conseguir ir aos Jogos Olímpicos quando cheguei ao Brasil estava completamente desgastada fisicamente mas ainda assim consegui manter o meu recorde pessoal. Os Jogos foram acima de tudo uma grande experiência que serviu para eu crescer, para tirar notas sobre como me focar nestas grandes competições. Foram, principalmente uma grande preparação para os próximos Jogos que irão acontecer em Tóquio.

Neste momento, qual é o maior sonho da Tamila Holub?

O meu grande sonho neste momento é sem dúvida uma boa classificação nos mundiais da Coreia do Sul que vão acontecer este verão no final do mês de Julho. Estou a trabalhar muito para que isso aconteça porque a seguir a esse, vem outro grande sonho que é uma final no Jogos Olímpicos conseguindo melhorar o meu recorde pessoal.

Diariamente olho para esses objectivos como uma escada onde o trabalho é feito passo a passo, onde me dedico a 100% para que esses resultados surjam e me deixem ainda mais feliz de que sou hoje.

Quando voltares para Portugal que histórias trazes na mala para contar ?

Tantas (risos), aqui é tudo diferente a nível competitivo e é incrível a maneira como todas as equipas sofrem umas pelas outras. É fascinante ver que as pessoas e os atletas vivem como se fossem uma verdadeira família onde puxam todos uns pelos outros para que todos alcancem o que realmente anseiam.

Apesar da natação ser uma modalidade muito individual, aqui nos E.U.A existe um grande espírito de equipa, algo que ainda é escasso em Portugal, tal como é ainda pouca a valorização de modalidades que não sejam o futebol. É satisfatório para mim quando vejo as pessoas interessadas no meu trabalho e na minha carreira num país tão longe do meu.

Antes de terminar vou contar uma história que certamente não me vou esquecer na minha passagem por cá. No dia 31 de Outubro fui a uma casa assombrada, quem me conhece sabe que eu nem um filme de terror consigo ver pois fico assustada por um longo período de tempo, (risos) mas este ano decidi enfrentar esse medo e arrisquei. Como devem calcular não correu muito bem e houve momentos em que eu chorava e ria ao mesmo tempo de tão assustada que estava. Durante a experiência que eu achava que iria ser benéfica para mim, percebi que não estava a resultar quando eu só conseguia falar em português porque o meu inglês já não saía. Pensava eu que ao fugir e gritar em português para os actores que estavam caracterizados (assustadoramente) os assustaria e me deixariam em paz. Essa é sem dúvida uma bonita, e arrepiante memória que levarei na minha bagagem para Portugal entre muitas outras que todos os dias vou coleccionando.

Não poderia terminar sem agradecer esta grande oportunidade que me deram e que certamente fará de mim uma melhor pessoa e consequentemente uma melhor atleta para voltar em força para o meu país.

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