Rui Macedo:”é possível gerir essa doença complexa e que é compatível com uma vida plena”

posted in: Desporto | 0

 

Qual a diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2?

A diabetes é uma condição crónica que ocorre quando o corpo não produz insulina suficiente ou não a consegue utilizar. A insulina é uma hormona essencial do nosso organismo produzida no pâncreas que transporta glicose (açúcar) da corrente sanguínea para dentro das células onde a glicose é transformada em energia. Quando a insulina está em falta ou não atua adequadamente, os níveis de glicose no sangue sobem (hiperglicemia) e com o tempo, podem provocar danos em vários tecidos do corpo, originando problemas limitadores e potencialmente fatais. Percebendo esta caracterização geral da diabetes e a distinção relativa à insulina, pode classificar-se a diabetes nas seguintes categorias:

– Diabetes tipo 1, devido à destruição pelo sistema imunitário da pessoa de células do pâncreas, levando à deficiência absoluta de insulina;

– Diabetes tipo 2, devido a perda progressiva da secreção de insulina dessas células com frequência no contexto da resistência à insulina, não a conseguindo utilizar.

Também podemos considerar os seguintes tipos de diabetes:

– Diabetes mellitus gestacional (diabetes diagnosticada na gravidez que não se tinha manifestado antes da gestação)

– tipos específicos de diabetes devido a outras causas, por exemplo, diabetes neonatal e diabetes de maturidade dos jovens [MODY], devido a doenças como fibrose quística e pancreatite ou diabetes induzida por substâncias químicas (como uso de terapêutica corticóide no tratamento do HIV ou após transplante de órgãos).

Diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2 são doenças distintas, com causas diferentes, nas quais a apresentação clínica e a progressão da doença podem variar consideravelmente. A classificação é importante para determinar a terapia, mas alguns indivíduos não podem ser claramente classificados como portadores de diabetes tipo 1 ou 2 no momento do diagnóstico. Tanto na diabetes tipo 1 quanto no tipo 2, quando a hiperglicemia ocorre, pacientes com todas as formas de diabetes correm risco de desenvolver as mesmas complicações crónicas, embora as taxas de progressão possam diferir. Dois fatores são importantes em ambos. Herda-se uma predisposição para a doença e, em seguida, algum factor ambiental a desencadeia.

Como é que a comunidade médica explica o aparecimento cada vez mais precoce de diabetes tipo 1 em crianças?

Os paradigmas tradicionais de diabetes tipo 2, que ocorrem apenas em adultos e diabetes tipo 1, em crianças, não são exatos, pois ambas as doenças ocorrem em ambos os grupos etários.

Não é linear essa afirmação de que surge cada vez mais cedo; continua a ser diagnosticada diabetes tipo 1 em todas as idades.  Na maioria dos casos de diabetes tipo 1, as pessoas precisam de herdar fatores de risco de ambos os pais. Factores de risco possíveis podem ser, por exemplo, nos caucasianos, pela sua maior taxa de diabetes tipo 1 e desencadeadores ambientais possíveis como o clima frio. A diabetes tipo 1 desenvolve-se mais frequentemente no inverno que no verão e é mais comum em locais com climas frios. Outro gatilho podem ser infecções causadas por vírus. Um vírus que tenha apenas efeitos leves na maioria das pessoas desencadeie diabetes tipo 1 em outras. A dieta precoce também pode desempenhar um papel e a diabetes tipo 1 parece ser menos comum em pessoas que foram amamentadas e naquelas que ingeriram alimentos sólidos em idades posteriores.

Em muitas pessoas, o desenvolvimento de diabetes tipo 1 parece levar muitos anos. Em experiências que acompanharam parentes de pessoas com diabetes tipo 1, descobriu-se que a maioria das pessoas que mais tarde tiveram diabetes tinham certos anticorpos no sangue há anos (anticorpos são proteínas que destroem bactérias ou vírus; autoanticorpos são anticorpos que que atacam os próprios tecidos do corpo), ou seja o próprio sistema imunitário da pessoa é que entra em ação.

Os genes por si só não são suficientes. Uma prova disso são gémeos idênticos. Gémeos idênticos têm genes idênticos. No entanto, quando um gémeo tem diabetes tipo 1, o outro contrai a doença apenas até metade das vezes. Quando um gémeo tem diabetes tipo 2, o risco do outro é de cerca de 3 vezes em 4.

Os níveis de glicose aumentam bem antes do início clínico da diabetes, tornando o diagnóstico viável bem antes do início do surgimento de um episódio de cetoacidose diabética.

Ainda se está a estudar a previsão das chances de uma pessoa ter diabetes. Será uma consequência do progresso da ciência mas já se diagnostica e já se trata toda a gente com diabetes tipo 1.

Até que idade esse tipo de diabetes costuma desenvolver-se?

Apesar de ser associado o seu aparecimento em crianças e adolescentes, pode surgir em adultos. O início de diabetes tipo 1 pode ser mais variável em adultos e pode não apresentar os sintomas clássicos observados em crianças. Embora possam ocorrer dificuldades em distinguir o tipo de diabetes em todas as faixas etárias de início, o verdadeiro diagnóstico torna-se mais óbvio ao longo do tempo.

 Quais os principais sintomas do diabetes na criança? Os pais devem estar atentos a que manifestações? 

Crianças com diabetes tipo 1 geralmente apresentam os sintomas característicos de poliúria (urinar em excesso), polidipsia (aumento na ingestão hídrica excessiva sensação de sede) e aproximadamente um terço apresentam cetoacidose diabética que é uma complicação da diabetes mellitus e uma emergência que requer hospitalização e cuidados imediatos; os sinais e sintomas incluem vómitosdor abdominal, uma respiração própria, lenta e profunda, micção frequente, fadiga, confusão mental e, em algumas ocasiões, coma. A boa notícia é que é possível gerir essa doença complexa e que é compatível com uma vida plena.

A criança que tem urinado com frequência, que tem bebido grandes quantidades de líquidos, que está a perder peso e a ficar cada vez mais cansada e doente é o retrato clássico de uma criança com diabetes tipo 1 recém-iniciada. Se uma criança que já tem treino urinário nocturno começa a sofrer acidentes e a molhar a cama novamente, a diabetes pode ser uma das hipóteses.

Embora seja fácil fazer o diagnóstico de diabetes em uma criança, verificando o açúcar no sangue no consultório médico ou na sala de emergência, a parte complicada pode ser reconhecer os sintomas e saber que a criança deve ser examinada. Aumentar a consciencialização de que crianças pequenas, incluindo bebés, podem ter diabetes tipo 1 pode ajudar os pais a saber quando procurar diabetes tipo 1.

Após o diagnóstico e no início do tratamento, algumas crianças podem passar por uma fase em que parecem estar produzindo insulina suficiente novamente. Pode parecer que

a diabetes foi curada mas com o tempo serão precisas doses apropriadas de insulina para manter os níveis de açúcar no sangue na faixa normal.

No diabetes do tipo 2, ocorrem dois problemas importantes: um é a resistência à insulina e o outro é a falta da liberação adequada na hora em que ela é necessária. Como se calcula essa relação?

Os endocrinologistas usam o IMC para calcular o grau da obesidade. Como é ele calculado?

Não é exclusivo dos endocrinologistas! Os profissionais de saúde (o seu médico de família ou o seu enfermeiro de família ou nutricionista) e qualquer pessoa individualmente pode calcular o seu Índice de Massa Corporal que é calculado pela relação seguinte: Peso/(altura)². Disseminar a noção desse índice pode ajudar a que mais pessoas se apercebam do problema cada vez mais prevalente do seu próprio excesso ponderal e que possa ser desencadeador de início de cuidados relacionados com o peso como a dieta e exercício físico. IMC acima de 25 significa excesso de peso, Obesidade acima de índice acima dos 30.

É preciso ser exageradamente obeso para desenvolver diabetes? Não, basta haver risco. Até pessoas magras poderão teoricamente desenvolver diabetes mas a obesidade e o excesso ponderal estão associados a um maior risco de desenvolver diabetes.

Como devem ser avaliados os níveis de glicemia? Apenas para as pessoas com terapêutica com insulina é que é necessário autoavaliar a glicémia. Nem para as pessoas com diabetes tipo 2 está aconselhada monitorização (vulgar picada no dedo) dos níveis de glicémia (excepto nalguns casos específicos). Os níveis de hemoglobina glicada A1c (HbA1c) são os mais importantes para orientar a promoção de intervenções nos estilos de vida e gerir a terapêutica do doente com DM2 não insulino-tratada. Esse é um acto clínico específico de cada caso a ser decidido em sede conjunta entre utente com diabetes e o seu médico. Poderá fazer sentido medir laboratorialmente no diagnóstico.

O diabetes é uma doença hereditária? Qual o peso da genética na instalação do diabetes tipo 2 nos adultos? Ao contrário de algumas características, a diabetes não parece ser herdado num padrão simples. No entanto, claramente, algumas pessoas nascem mais propensas a desenvolver diabetes do que outras.  Diabetes tipo 1 e tipo 2 têm causas diferentes. No entanto, dois fatores são importantes em ambos. Herda-se uma predisposição para a doença e de seguida algo no ambiente individual a desencadeia. Os genes por si só não são suficientes. Uma prova disso são gémeos idênticos que, apesar de terem genes idênticos, quando um gêmeo tem diabetes tipo 1, o outro contrai a doença apenas na metade do tempo. Quando um gémeo tem diabetes tipo 2, o risco do outro é de no máximo 3 em 4.

Pode aparecer um caso de diabetes numa família que não tinha a história da doença? Como referido anteriormente, terá que haver uma predisposição genética para o surgimento da doença

Quais os principais sintomas do diabetes?

Urinar frequentemente, sensação de muita sede, sensação de muita fome – apesar de ter comido, fadiga extrema, visão turva, feridas que demoram a cicatrizar, perda de peso que não de explica pelo que se come, formigueiro, dor ou dormência nas mãos ou pés. O ideal será falar com o seu médico de família que ajudará a estabelecer um diagnóstico, seja diabetes ou não.

O Município de Braga, em parceria com o ACES arrancou agora com o Programa “Diabetes em Movimento”. Pode falar da importância do mesmo para os bracarenses?

O programa Diabetes em Movimento, que já conta replicação nos últimos 10 anos com sucesso, tem chancela técnica e é escrutinado (e auditável) pela Direcção-Geral da Saúde e obriga ao compromisso entre cuidados primários e as autarquias. Manifestamos vontade de colaborar com a autarquia que é um parceiro essencial hoje em dia, obviamente não só na população em específico deste programa (de utentes com Diabetes tipo 2); pareceu-nos exequível em linhas gerais e, uma vez garantido o apoio essencial das nossas Unidades de Cuidados na Comunidade na supervisão das sessões a que o programa obriga e a presença de profissional especializado em educação física, passamos a uma fase seguinte que é a do recrutamento de utentes para o programa.

Uma parte essencial da gestão terapêutica da diabetes tipo 2 é manter uma dieta saudável. É essencial recolher dicas úteis e planos de dieta que melhor se adequa ao estilo de vida de cada um. Outro elemento chave para essa gestão é a condição física. E as boas notícias é que basta seguir em frente. Basta um calçado confortável, abrir a porta de casa e começar a caminhar, por exemplo. Não é necessário ser-se maratonista. A chave é encontrar atividades que sejam do agrado de cada pessoa com diabetes e realizá-las sempre que possível. No caso em específico, gostaríamos de motivar pessoas para este tipo de exercício adaptado em específico para este tipo de população de pessoas com diabetes tipo 2 e alertar para o sucesso terapêutico que vem com o programa Diabetes em Movimento. É uma mais valia que os cidadãos de Braga com esta patologia possam beneficiar de um programa rigoroso e bem sucedido como este. A partir de agora é possível.

 Como se desenrola todo o processo e como poderão os interessados marcar presença neste programa?

O Diabetes em Movimento dá correspondência a um dos passos terapêuticos obrigatórios no tratamento de pessoas com diabetes por ser um programa comunitário de exercício físico para pessoas com diabetes tipo 2; o programa consta de sessões de exercício supervisionadas por profissionais de exercício físico e enfermeiros, em grupos de no mínimo 20 participantes, 3 vezes por semana e gratuitas, e com a duração de 75 minutos

Para aderirem, as pessoas com diabetes tipo 2 terão que falar com a sua equipa de saúde familiar (médico ou enfermeiro de Família) que discutirão acerca dos critérios de inclusão no programa.

Até ao final do ano há ainda vagas para integrar o programa no programa 2019/2020,  é intenção do Pólo de Braga (parceria entre o Município de Braga e Agrupamento de Centros de Saúde de Braga) manter o programa em funcionamento nos anos seguintes, que começa sempre em  outubro.

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *